Quando comecei a me interessar pela carreira diplomática, ainda em minha adolescência, já lia e ouvia pessoas dizendo que os avanços tecnológicos, especialmente da área das telecomunicações, iriam transformar ou até mesmo acabar com a atividade dos diplomatas. Não haveria mais razão, em um futuro próximo, dizem os defensores dessa tese, para os Estados manterem pessoas fisicamente os representando no exterior, pois poderiam tratar de seus interesses com os demais de maneira remota ou até mesmo automática, por meios eletrônicos.

Mais de 20 anos se passaram e o que pude observar nesse tempo foi uma tendência contrária ao previsto pelos profetas do fim da diplomacia tradicional, ainda que eu continue a me deparar com os argumentos que ouvia há décadas e que certamente já eram defendidos bem antes de eu participar dessas discussões.

Isso ocorre por uma razão muito simples: as relações humanas não podem ser substituídas por máquinas. Ao contrário, as facilidades de comunicação aumentam a interação entre as pessoas, ainda que eventualmente evitem alguns encontros presenciais.

Peguemos o exemplo das teleconferências ou das mais modernas videoconferências. Outro dia, participei de uma dessas, em Brasília, quando temas das relações econômicas do Brasil com um determinado país foram amplamente discutidos. Foram cerca de 20 participantes de cada lado, cada um representando uma instituição distinta de seu respectivo governo e responsável por certo assunto da pauta bilateral.

Muitos recursos foram certamente economizados nesse encontro, que, se tivesse sido presencial, acarretaria consideráveis gastos, pelo menos para um de nossos cofres públicos (passagens aéreas e diárias, por exemplo). No entanto, nas 3 horas de discussão, gastou-se apenas energia elétrica, conexão por internet e tempo dos participantes.

Não se pode, porém, avaliar um perfume pelo rótulo. Ao abrirmos esse frasco, encontraremos considerável esforço de preparação de cada um(a) do(a)s presentes, especialmente dos diplomatas, para o levantamento dos antecedentes (informações sobre o andamento daqueles temas até aquele momento), identificação dos pontos de debate, obtenção de instruções (da chefia imediata), conteúdo da mensagem a ser transmitida aos interlocutores estrangeiros etc.

Todo esse trabalho foi feito por humanos. As máquinas foram utilizadas apenas como instrumentos para o exercício da diplomacia. Além disso, do lado de lá, havia dois diplomatas da Embaixada do Brasil naquele país que acompanhavam todos os temas previamente e seguirão acompanhando de lá. Eles elaboraram um relato da reunião e permanecerão em contato com os representantes do Estado com o qual mantemos relações diplomáticas, sempre em defesa dos interesses brasileiros, no caso econômicos, com aquele país.

Isso sem contar, como foi o meu caso, com os desdobramentos que a reunião deverá ocasionar, inclusive com a necessidade de deslocamentos físicos de uma parte à outra. Discutiu-se a possibilidade de se realizarem missões nossas àquele país e vice-versa. Provavelmente, sem a realização dessa videoconferência, essa(s) missão(ões) não ocorreria(m) e nossas relações bilaterais seriam menos intensas do que são a partir das facilidades de comunicação que nos proporciona o avanço tecnológico.

Desistam, portanto, aqueles que querem ver o fim da diplomacia física. Garanto que essa carreira tão antiga – dizem ser a segunda que surgiu no mundo – permanecerá ainda por muitos e muitos anos cada dia mais fortalecida e valorizada!

Prof.Jean Marcel Fernandes – Coordenador Científico

Jean MarcelNomeado Terceiro-Secretário na Carreira de Diplomata em 14/06/2000. Serviu na Embaixada do Brasil em Paris, entre 2001 e 2002. Concluiu o Curso de Formação do Instituto Rio Branco em julho de 2002. Lotado no Instituto Rio Branco, como Chefe da Secretaria, em julho de 2002. Serviu na Embaixada do Brasil em Buenos Aires – Setor Político, entre 2004 e 2007. Promovido a Segundo-Secretário em dezembro de 2004. Concluiu Mestrado em Diplomacia, pelo Instituto Rio Branco, em julho de 2005. Publicou o livro “A promoção da paz pelo Direito Internacional Humanitário”, Fabris Editor, Porto Alegre, em maio de 2006. Saiba +


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2 Comentários

  • Igor Calimam Sampaio 27 de fevereiro de 2018

    As relações humanas são sempre necessárias. Eu, como cientista social que sou, me interessei pela carreira diplomática na faculdade. Mas, pelas voltas que a vida dá, acabei seguindo outro rumo, quando. Desde o ano passado, decidi voltar ao meu sonho quinze anos depois. E, vejo, ainda, a possibilidade da diplomacia humana. É isso que me atrai muito na carreira. Como vamos ajudar nossos irmãos passando fome? Como vamos ajudar a fechar uma demanda para o Brasil sem a conversa ao pé-do-ouvido? Eu acho isso “humanamente” impossível.
    Jean, é possível explicar em algum outro post como funciona os direcionamentos de carreira?

  • Danilo Bernardo 5 de abril de 2018

    Continue com os textos, pois, muito nos ajuda!

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